12 fevereiro 2014

The Wolf of Wall Street







Deboche, deboche à velocidade da luz! “Cocaine and hockers!”, como brada a personagem de Matthew McConaughey, na sua breve mas verdadeiramente electrizante aparição. Sexo, drogas e especulação financeira! Bem-vindos, contemplem a louca, louca Wall Street, cortesia das memórias de Jordan Belfort! 





“The Wolf of Wall Street”, quinta colaboração entre Scorcese e DiCaprio, é uma trip (quase) sempre em alta e sem retorno, ao impressionante e sujo mundo da especulação financeira. Por entre uma montagem exuberante e inconstante, por entre extravagantes escolhas musicais, por entre uma linguagem agressiva e muitas vezes non-sense, por entre ousadas e até ridículas cenas de sexo, reconhecemos o génio e classe de Scorcese, que no âmago de tanta folia, arquitecta pois um retrato alucinante e ousado, mas nunca moralista, da ganância e corrupção humanas! E depois temos o senhor DiCaprio, prodigioso camaleão, incorporando de forma assombrosa a impetuosa mesquinhez, a apelativa excentricidade, a demolidora arrogância, o animado despotismo que a sua personagem adoptou como mantra! Uma composição de tal modo apaixonante que, mesmo sabendo a sua queda como inevitável e justa, é com fervor que por ele torcemos! Neste corrupio de excessos, destaco ainda o hilariante papel de Jonah Hill e a sedutora interpretação de Margot Robbie; o primeiro em excelente complemento cómico, a segunda, em presença fogosa e determinada! 





Sumptuoso, audaz e vertiginoso, “The Wolf of Wall Street” mantém-nos sequiosos das reviravoltas e esquemas deste lobo que nunca vestiu a pele de cordeiro, mas certamente nos arrebatou como um!


06 fevereiro 2014

Rush







Acho que um dos maiores elogios que posso dar a “Rush” é ter-me mantido, uma não-aficionada da Fórmula 1, completamente absorta e entusiasmada durante os seus 120 minutos! 

O argumento de Peter Morgan, que narra, a excitante ritmo, o trajecto de Niki Lauda e de James Hunt até ao lendário confronto no Campeonato Mundial de 1976, é apaixonante na forma como descreve a ardente e singular rivalidade existente entre os dois. Uma rivalidade que inspirava estas duas personagens antagónicas, exemplarmente interpretadas por Daniel Bruhl e Chris Hemsworth! Bruhl, indubitavelmente carismático, transmite de maneira irrepreensível a disciplina e precisão de Lauda; já Hemsworth é esplêndido no retrato do indomável playboy Hunt! Por outro lado, todo o ambiente e caracterização exalam autenticidade e é assim, de forma visceral e arrebatadora, que Ron Howard nos transporta para os meandros desta época dourada da F1.

“Rush”, sóbrio e sedutor, impõe-se audaciosamente pela extraordinária química entre a dupla de protagonistas, a qual, acima da excelente “mise-en-scène”, lhe confere aguerridamente fidelidade e alma!


31 janeiro 2014

(As) Simetrias [14]








Em Atonement, a verdade sufoca por entre duas visões dos acontecimentos. A de Briony e a de todos os outros.


"I saw him. I saw him with my own eyes."






O que é que Briony viu? O que é que ela imaginou? Presa entre a ingenuidade e o ciúme, presa entre a imaturidade e o desejo de ser levada a sério. 





Presa entre a realidade e a ficção. A sua ficção.


29 janeiro 2014

12 Years A Slave







Há uma quietude desconcertante nas etéreas paisagens sulistas que tão sublimemente nos são oferecidas. O cândido pôr-do-sol, o voo de espontâneas aves ou os ramos que tocam na limpidez do rio não escondem contudo o horror que os circunda. Os paralisantes lamentos de uma mãe, a desesperada ânsia por um toque de afecto, o ressoar sangrento do chicote, a prepotência abjecta movida pela ira e ódio. Não. Antes convivem como centenários vizinhos, em disfuncional e imposta harmonia. Irrompemos, sem licença ou delicadeza, pela profunda América esclavagista. 

Na sua terceira longa-metragem, Steve McQueen, fiel a si mesmo, compõe um devastador e cru retrato da escravatura nos Estados Unidos, que fatalmente nos persegue e atormenta. Que dizer da já referida sobreposição entre a Natureza e violência? “That's Scripter!”, em perversa ironia. Ou da cena do funeral, catarse que ousamos comungar com Solomon? Daí não concordar que haja convencionalismo a assombrar esta obra. Há, sim, na minha opinião, uma substancial diferença para com os seus anteriores filmes: esta não é apenas uma luta de um homem só. “Hunger” e “Shame” estavam centrados nos seus protagonistas, que mesmo díspares, partilhavam no entanto uma miserável e desesperada solidão. Ora “12 Years A Slave”, embora seja obviamente a história de Solomon Northup, não pode assentar somente nesta personagem. Não ignorando a sua individualidade, é para mim inegável que a sua mágoa, a sua impotência e dor são também as de Eliza, as de Patsey, as de Abraham…as de incontáveis e anónimas vozes. Assim, mesmo não sendo o meu favorito é, sem qualquer sombra de dúvida, uma obra de admirável coragem, de arrasadora frontalidade e de extraordinária beleza. 






McQueen, notável maestro, dirige um trio de igualmente excepcionais interpretações. Chiwetel Ejiofor, com garra e comoção, demonstra de forma sólida todo o sofrimento e luta da sua personagem. Lupita Nyong’o, que intensa revelação! A sua terna Patsey, encurralada em impossível e trágica condição, é simplesmente avassaladora. E Michael Fassbender…bem, Fassbender constrói, num degradante crescendo, uma criatura que ultrapassa o vil, o cruel, o déspota, numa composição absolutamente arrepiante! 






Saí devastada. Que melhor elogio lhes posso oferecer?


16 janeiro 2014

The Hunger Games - Catching Fire




"Remember who the enemy is."






Passado um ano, regressamos à arena. Ou, verdade seja dita, e como Katniss dolorosamente se apercebe, nunca chegámos a sair do seu interior.
O segundo capítulo da trilogia " The Hunger Games" retorna em força. Tecnica e visualmente irrepreensível, explora de forma convincente e surpreendente as consequências dos eventos ocorridos nos últimos Jogos. Jennifer Lawrence retoma o seu papel como uma anti-heroína ainda mais destemida e atrevida. Pena é que a sua química com Josh Hutcherson não seja a mais flamejante.
Apesar disto, e sem querer revelar pormenores, "Catching Fire" supera entusiasticamente o seu antecessor, oferecendo-nos o que esse nem sempre mostrou: chama, muita chama!
E na espera que se segue, despeço-me com a questão: cantará o tordo por fim em liberdade?



14 janeiro 2014

Cinematograficamente Musicando (7)




Don't Stop Me Now 

(Queen - 1978)





A energética e contagiante música dos Queen protagoniza um dos momentos mais hilariantes e geniais da brilhante e tão "british" sátira que é "Shaun of the Dead".


07 janeiro 2014

Jagten (The Hunt)




The world is full of evil 
but if we hold on to each other, it goes away. 






E se o mal surgir da mágoa de uma criança? Mas “As crianças nunca mentem!”, ouve-se uma e uma e outra vez. Mais até do que “Não o fiz. Não sou culpado.” E se esta nuvem de ambiguidade ensombrasse todo o filme, eu não o iria recordar somente pela sua bucólica e singular cinematografia. Pena é que nem por momentos me tolde o juízo. Klara está a mentir. Sei que Lucas é inocente. E agora? Torna-se evidente que Thomas Vinterberg idealizou uma abordagem diferente. A caça. O homem íntegro e bom que toda a gente conhece torna-se a presa. Dúvidas, malícia e boatos cercam-no e atacam. A sua comunidade é agora o seu mais feroz predador. Talvez. Não sei bem. Não o cheguei a sentir. O sangue e lágrimas de Lucas acabam por não ser suficientes. Apesar da belíssima cena na igreja, em que um intenso e devastado Mads Mikkelsen quase me fez esquecer o terrível simplismo que contaminou uma tão promissora premissa. E, de súbito, o insípido e incongruente final confirma os meus receios: fui irremediavelmente defraudada.


06 janeiro 2014

Momentos (XXI)







"I'm not formed by things that are of myself alone. 
I wear my father's belt tied around my mother's blouse, 
and shoes which are from my uncle. 
This is me."

(Stoker - 2013)



28 dezembro 2013

Thor





Convém talvez dizer que eu nunca li os comics, nem de Thor nem do restante universo Marvel, e só conheço de forma ligeira alguma história das suas personagens. Ou seja, a minha crítica centra-se apenas no filme em si, não tendo bem em conta a adaptação. 

E assim posso afirmar que fui agradavelmente surpreendida. Não estava à espera que o filme tivesse uma abordagem tão shakesperiana e penso que Kenneth Branagh foi bem-sucedido nessa transposição. Nota-se que houve cuidado em desenvolver a personagem de Thor e o seu percurso. Claro que ajuda ter um Anthony Hopkins como Odin, com toda a sua presença e aquela voz magnética. E Chris Hemsworth cria um “sólido” Thor, numa clássica viagem, mas sempre emocionante, de queda e redescoberta. Aliás, a química entre as personagens é outro grande trunfo desta adaptação; saliento ainda a perseverante Natalie Portman e o incrível Tom Hiddleston como Loki (que conheci primeiro nos Avengers, é o que dá não os ver por ordem), o vilão carismático e travesso. A caracterização de Asgard está igualmente excelente, mostrando um universo poderoso mas não demasiado fantasioso. 




Desta forma, entramos neste universo a um ritmo cativante e enérgico, com bons momentos de acção e humor, que não descurando a história/mitologia, nos oferece um entretenimento sólido e contagiante!


06 dezembro 2013

The Counselor








Existem palavras a mais, conversas demasiado longas, divagações (quase) filosóficas. Na sua maioria, dignas de nota até. O problema é que um filme não sobrevive só disso. Principalmente se o argumento for pouco claro, sem destino. Principalmente se não formos capazes de nos preocupar com as suas personagens. Por vezes, elas parecem apenas desfilar, magnificamente vestidas e em excelentes carros. E contudo, há intenção de construir mistério, tensão, dúvida, desconforto. Repare-se em alguns diálogos entre Fassbender/Pitt e Fassbender/Bardem ou a cena final do (apesar de tudo, consistente) Fassbender. O filme parece procurar densidade, magnitude. Mas esbarra em algum non-sense e, acima de tudo, na ilusão de que tudo o que funcionaria num livro, funciona igualmente no grande ecrã. Cormac McCarthy, responsável pelo argumento, oferece-nos belos momentos de tensão e violência…mas as partes não fazem o todo, Riddley Scott não lhe dá a volta…e o filme quebra-se nessa inconsistência.






“There is no rule of exchange here, you see. Grief transcends every value. A man would give whole nations to lift it from his heart. And yet with it you can buy nothing.”