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25 outubro 2015

Sicario






O horror é imediato, chega-nos em fila descamuflada e mutilada. É o jugo dos cartéis de droga mexicanos, de que ouvimos falar de forma diluída e ocasional nas notícias.

Villeneuve filma a imensidão das paisagens, a multiplicidade dos carros em carreiro na fronteira, a aridez do horizonte, como espelho desta problemática. A praga que se espalha, disseminando morte e violência, cujo fim não se vislumbra.

"That's what happens when you cut a chicken's head off."

O plano é aparentemente simples. E progressivamente amoral, como descobrimos ao lado de Kate, numa composição tão destemida quanto frágil de Emily Blunt. Mal com mal se ataca, um mal menor para um bem maior. Magnificamente personificado por Benicio del Toro, numa interpretação que que faz do silêncio e do mistério os seus trunfos. 
Sicario constrói a sua intriga de forma inteligente, numa lógica livre do "preto e branco" dos bons e dos maus. É desafiante e nunca gratuito. Robusto e nunca condescendente. Por isso não deixo de ter um sentimento algo agridoce para com o seu final. Pareceu-me surpreendentemente redutor e não pensei que o filme fosse enveredar por essa vertente de "vendetta". Julgo que tenho um qualquer problema com os finais de Villeneuve, aconteceu-me o mesmo com "Enemy". 





Ainda assim, constitui apenas um pequeno percalço. Sicario afirma-se como um thriller sólido e desafiador, fortalecido pela exímia composição de del Toro, pela desoladora e bela fotografia e pela realização intrigante de Villeneuve. E sem dúvida pela desesperante constatação final: o horror mantém-se, a normalidade do dia-a-dia é apenas uma casualidade...


16 janeiro 2015

Enemy






Chaos is order yet undeciphered. 


Já tinha este debaixo de mira há algum tempo, principalmente por ser uma adaptação do livro “O Homem Duplicado” de José Saramago, de premissa curiosa e desenvolvimento acutilante, propício, como habitual, a uma boa reflexão. Lida a obra, foi então hora de me dedicar ao filme. 

E dedicar não foi uma mera força de expressão…”Enemy” é sem dúvida um daqueles vertiginosos quebra-cabeças passíveis de muitas e díspares interpretações e saúdo-o por isso. Foi habilmente escrito e realizado e Jake Gillenhaal é fenomenal no modo como, através de pequenas nuances, trejeitos, expressões ou gestos, compõe duas (in)distintas personagens. Mas ainda assim não me cativou. 

E porquê, perguntarão? Eu sei que esta não foi uma adaptação per se e, como disse anteriormente, a narrativa em si, mesmo se diferente, foi engenhosamente desenvolvida. Mas a comparação é inevitável e o facto é que se o filme coloca muitas perguntas, o livro levanta muitas mais. É bastante mais desafiador da ética e moralidade da sua personagem principal, conduzindo-a a um destino bem diferente do apresentado no filme, mesmo considerando as várias possibilidades que a sua própria construção oferece.





Teria eu uma outra opinião se não houvesse “O Homem Duplicado”? Talvez…não nego nem a excelência nem a irreverência de “Enemy”, apenas não me encheu as medidas. Assim, apesar das inegáveis qualidades que lhe aponto, para mim “Enemy” acaba por ser inferior a “O Homem Duplicado”, no sentido em que lhe falta o arrojo e a perversão finais que encontrei na obra de Saramago.