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03 outubro 2015

As Mil e Uma Noites: Volume 1 - O Inquieto






Que posso eu escrever sobre "As Mil e Uma Noites - O Inquieto"? Aproprio-me das palavras do realizador: "Sinto-me burra e a abstracção faz-me vertigens." Que posso eu escrever? É difícil. Achei-o mirabolante e corrosivo, em forma e conteúdo. Complexo e de momentos sublimes. Ruína a cobrir o sonho, miséria abraçada ao amor, num retrato crítica mordaz e acutilante ao país despedaçado e inquieto. Inquieto da incerteza dos dias, inquieto do desalento, inquieto pela esperança, inquieto pela longevidade dos néscios que nos governam. Eu, como tantos outros, sou esse país. Venha "O Desolado"!


03 abril 2015

Manoel de Oliveira







Numa tarde encoberta a passear pelas margens do Douro, vejo ao longe um grande grupo de pessoas, câmaras de filmar, uma tenda branca e uns mergulhadores. Aproximo-me, olhando em volta, tento descobrir de que se trata. Até que vejo um livro, grande e antigo, a boiar nas águas revoltas. Capa pesada, ornada e bela. A equipa tenta resgatá-lo. As filmagens já terão certamente terminado naquele dia.


Ontem voltei a ver esse livro. Flutuava imponente no ecrã da minha televisão. Pertencia à curta-metragem “O Velho do Restelo”, de Manoel de Oliveira, misto de estilização e maquinação teatral e filosófica, e belo ainda assim. Não vi Manoel de Oliveira nesse dia (nem sabia que era um filme dele), quiçá estivesse abrigado na tenda ou já ocupado noutro lado, sempre enérgico e a trabalhar. Pois era efectivamente essa uma das imagens que tinha (tínhamos) dele, a vontade e determinação em nunca parar, em nunca ceder ao tempo, em continuar a fazer o que o apaixonava. Mesmo nem sempre compreendendo totalmente ou por vezes nem apreciando o (ainda pouco) que conhecia da sua obra, essa tenacidade e paixão eram exactamente o motivo principal porque o admirava. 


Fico a pensar no livro, sábio e resiliente sob a força das águas, à imagem do seu realizador. O realizador que afirmava “continuo a ser um aprendiz do cinema” e que “o cinema é um fantasma da realidade”. O realizador que queria filmar até morrer. Conseguiu-o. Manoel de Oliveira. Uma vida em pleno e um legado que será eterno.


26 setembro 2014

Os Maias






“A casa que os Maias vieram a habitar no Outuno de 1875 era conhecida…como o Ramalhete.” 

A afirmação ecoa, solene e despojada, na tela como nas páginas, dando início à encenação. Memórias, figurinos, retratos e velhos móveis, artefactos e manuscritos, comungando, nesse harmonioso e peculiar genérico, com as fotografias dos actores e com o próprio guião. 
Está riscado, está escrevinhado, é (quase) cópia das palavras de Eça. Não é, contudo, uma mera transposição, aborrecida e linear. Longe disso, afirma-se como uma singular e vívida experiência, uma que é extraordinariamente capaz de se apropriar da obra sem lhe retirar espírito ou fibra! 





Em tom eternamente mordaz, o filme contrabalança de modo arrebatador a forte crítica moral e social com o turbilhão emocional do romance entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Desde o “chique a valer” Dâmaso ao obtuso Gouvarinho, desde o saudoso Alencar ao incompreendido Cruges, desde o fleumático Craft e tantos outros até ao “antepassado bonacheirão” Afonso, todos compõem exemplarmente o âmago deste “chiqueiro” à beira-mar plantado, num retrato que tanto tem de cómico como de miserável! Como que a reforçar esta caracterização, a decisão de usar cenários falsos, lugares passados pintados a óleo, ainda que tenha por trás razões económicas, acrescenta-lhe um simbolismo que eu considero delicioso! Que pitoresco, que ilusão esta que salienta o triste anacronismo de Portugal, que belo e contudo desolador contraste entre as personagens e o ambiente que as rodeia…este pode ter mudado mas o chiqueiro mantém-se! 
Assim, como diria o Ega, “preciso de um banho por dentro!” E oh, esplêndido Ega, este Ega que parece ter saltado directamente da pena de Eça para o ecrã! Soberbo Pedro Inês, sarcástico, intenso, rebelde, um assombro! 





Do mundano ao amor! “Sabe perfeitamente que a adoro!”. Ah, doce e insaciável amor, voraz e cortês amor! Talvez por isso as cenas até à declaração de Carlos sejam filmadas com uma sensibilidade pungente e delicada, dois amantes inconfessos e castos. Por outro lado, o momento da confissão de Maria Eduarda reveste-se de um despojo emocional tumultuoso e até revigorante! 
E, no entanto, o brasão dos Maias, veludo sangue, sangue de paixão, sangue de dor, sangue de tragédia, não deixa de tombar, irreversivelmente, nessa noite sem luar nem perdão! Dois amantes confessos e ávidos, um, apenas consciente do amargo pecado. “Como é possível que…?”. Já o tinha questionado Ega, em mais um momento de notável expressão. Como, brada agora Carlos, incrédulo e revoltado? Graciano Dias é assim sublime neste acto em desgraça, corpo e alma dilacerados de ardor e mágoa! Por sua vez, e até estranhamente, a personagem de Maria Eduarda é a mais quieta do trio principal, ainda que Maria Flor consiga o seu momento: uma desoladora prostração ao som de La Traviata! 





“Meu caro, a vida é engano e desilusão!”. 

E oh, que belo engano, que bela ilusão nos oferece João Botelho! Um excelente trabalho de adaptação e realização, criador desta apaixonante e envolvente “ópera” trágico-cómica que, não só homenageia, como capta de forma crua e magnética a essência do romance de Eça! Bravo!



Imagens retiradas de: http://www.ardefilmes.org/osmaias/


01 abril 2012

Florbela




Turbilhão na alma, tumulto no coração. Sôfrega de vida, ávida de paixão, mente despedaçada em inquieta insatisfação. 




É assim a Florbela de Vicente Alves do Ó. Aliás, Bela, a mulher, porque Florbela, a poetisa, só no fim nos encanta com os seus versos. A poesia pertence assim a Vicente Alves do Ó, um sonho dentro de um sonho, num filme visualmente esplêndido e, pela sua natureza, deliciosamente subjectivo. Contudo, apesar da grandeza da imagem, este não seria o mesmo sem Dalila Carmo, simplesmente arrebatadora, fúria e amor em constante colisão! Albano Jerónimo e Ivo Canelas, não obstante a necessidade de um desenvolvimento mais completo das suas personagens, são, ainda assim, seus magníficos companheiros. 




“Ser poeta é ser mais alto…” e aqui reside talvez a falha maior do filme. Alguma soberba contamina este retrato; para mim, visível principalmente naquela premonição sob a neve. No entanto, tal não é, felizmente, definidor do filme, uma obra ousada e bela, sedutora e contagiante no seu âmago, espelho de uma mulher fora do seu tempo.




11 maio 2011

Artur


"Pai é Deus", "Deus é Pai", palavras sussurradas repetidamente contra o mar tranquilo, num qualquer amanhecer do passado século.




E do aparente sossego viajamos para o tumulto, pelo conturbado génio de Artur Ramadas, realizador português dito como um dos mais incompreendidos e menos conhecidos. Num extraordinário documentário do seu percurso, segmentos de algumas das suas obras, imagens de arquivo e testemunhos de quem com ele privou compõem "Artur", num retrato irremediavelmente marcado pela sua alma contraditória.

Realizado por Flávio Pires, com produção de Fernando Ribeiro e Mafalda Castelo-Branco, alunos da Universidade Católica do Porto, "Artur" assume-se como um excelente documentário, cativante e frontal, definitivamente a não perder! Termino felicitando todos os envolvidos neste projecto!

09 março 2011

O Porto em Desassossego





De regresso ao Porto...

A não perder!





“Não me choca a interrupção dos meus sonhos: de tão suaves que são, continuo sonhando-os por detrás de falar, escrever, responder, conversar até.”

Fernando Pessoa (O Livro do Desassossego)

08 outubro 2010

Embargo





Pressente-se Saramago em todos os momentos. Um embargo económico a estagnar uma nação ou um embargo mental e cultural que ultimamente a define? Aposto no último, nessa opressão do sonho e invenção, nesse contraste anacrónico que ironicamente preenche o filme, numa sociedade perdida entre as (des)maravilhas da globalização, que tão fácil e mordazmente nos isola e bloqueia!

E que grande desempenho de Filipe Costa! O seu personagem, dono de uma determinação tão poética quanto inglória, tem uma composição sensível, lutadora, perturbada, sonhadora, desesperada e apaixonada, magnificamente expressa pela amplitude do seu olhar!
Articulando o excelente argumento com a esplêndida interpretação do protagonista, é de realçar ainda a eclética, intimista e invulgar banda – sonora e o trabalho de fotografia, num desolador sépia, que, em conjunto, complementam o retrato desesperante deste país esgotado, indefinido, tristemente suspenso no vazio da impotência!

“Embargo”, sublime adaptação de António Ferreira, entre o cómico e o sombrio, entre o ridículo e o grave, constitui uma fabulosa, louvável e absolutamente imperdível revelação do cinema português!




Assim, repito entusiasticamente: Por favor, não embargar!

25 abril 2010

Capitães de Abril


“Capitães de Abril” foi um filme marcante para mim, que me impressionou e emocionou, e, já agora, o primeiro filme português que vi no cinema.

Lembro-me bem da sequência inicial, a ilustrar o horror da Guerra do Ultramar, e do que me fez sentir. Lembro-me de admirar e de me comover com a pessoa que foi Salgueiro Maia, um exemplo de honra, coragem, sensatez e integridade! (E destaco a sua interpretação por Stefano Acorsi, uma grande mais-valia deste filme!) Lembro-me de exultar com o relato da Revolução, deste passado ainda tão próximo, que não pode nunca ser esquecido!
Assim, este foi um filme que teve definitivamente um impacto em mim, do qual gostei imenso! De facto, não resisto a revê-lo em DVD ou quando passa na televisão.

A esta distância, tenho que dizer que o filme tem alguns defeitos, como a deficiente dobragem de voz e algum desequilíbrio no desenvolvimento da parte mais ficcional da história.

Contudo, a “base” da primeira impressão mantém-se. Para mim, é um filme especial. Para além da interpretação de Stefano Acorsi, tenho de realçar a beleza da banda sonora, a cargo do Maestro António Vitorino d’Almeida! (que tem também um pequeno, mas inesquecível, papel no filme).
Acima de tudo, sente-se ao longo de todo o filme a (devida) homenagem ao capitão Salgueiro Maia, numa composição inspirada e belíssima! E, em última instância, aos capitães de Abril e ao povo português que sofreu e lutou pela liberdade do nosso país!
Por isso termino exclamando: “Viva o 25 de Abril! Viva a Liberdade!”