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18 fevereiro 2016

The Danish Girl



Mergulhamos num quadro vivo de cores opulentas e saturadas, de ambientes vívidos e sóbrios, de poses e expressões delicadamente pensadas. Numa primeira parte de “The Danish Girl”, tudo gira à volta do quadro, da inspiração, das musas e da concretização, imerso numa beleza inebriante, numa sublime felicidade matrimonial! 
Contudo, lenta e subtilmente, vorazes indícios espreitam pela calada. Um posar generoso, uma sedução ao luar, um provocativo disfarce. Conheçam Lili, momentânea e delicada máscara! Mas nem momentânea, nem máscara… Conheçam Lili, despeçam-se e esqueçam Einar!





 “The Danish Girl” discute com assombrosa frontalidade e sensibilidade o tema da identidade de género e da transexualidade, desde o drama do conflito interior e da própria aceitação, à dificuldade dos próximos e preconceito da sociedade em reconhecer e aceitar! Li algumas críticas em relação à não completa veracidade desta adaptação, que terá sido romantizada e polida…Não sei até que ponto a história poderá ou não ter sido alterada. Contudo, penso que o filme encara estas questões com seriedade e arrojo, com a intenção de nos fazer reflectir sobre um tema que ainda esbarra com tanta discriminação, ignorância, fobia e ostracização! 
Tom Hooper é sagaz ao conduzir a narrativa e a enquadrar os sucessos, as dificuldades e o drama das personagens com a encenação e fotografia do filme. Mas sem a entrega apaixonante dos actores principais, “The Danish Girl” não seria o mesmo! Eddie Redmayne é avassalador na sua transformação, que não incluiu apenas uma transformação física, antes uma completa incorporação de postura, expressões, gestos e voz, a exalar feminilidade! Por sua vez, Alicia Vikander é absolutamente arrebatadora e pungente na forma como encarna a mescla de confusão, repúdio, dor, aceitação e amor! Penso que tanto as suas interpretações como a narrativa são pródigas a mostrar como devia ser natural compreender e aceitar esta realidade! Infelizmente, acrescento, podem ter decorrido já quase 100 anos, mas muitas mentalidades continuam presas e obtusas no tempo… 




“The Danish Girl” é, deste modo, uma composição notável e inspiradora, capaz de abordar o tema da transexualidade sem receios nem complexos!


23 janeiro 2015

The Theory of Everything






E o tudo é, simplesmente, Eddie Redmayne
Que metamorfose, por Deus! É quase indescritível a forma prodigiosa como “incorporou” Stephen Hawking, assumindo cada pequena e tormentosa evolução da doença, cada decair físico, cada minúsculo trejeito expressivo do rosto, num jogo irónico e singular de estar em controlo sobre a sua simulação de descontrolo…Pareceu-me, direi, (quase) sobre-humano! 





Já o filme, como um todo, está longe de ser extraordinário. Gostei sim, mas não me arrebatou. 

Por um lado, a história inicial de amor entre estes dois opostos foi desenvolvida de forma cativante, não só através das performances dos protagonistas como também pela beleza genuína da fotografia e da banda sonora. A curiosidade e o génio de Hawking também foram bem retratados, mostrando alguns dos seus postulados mais importantes e que tanto mudaram quer a Física quer a nossa percepção do mundo. 
Por outro lado, penso que por vezes pecou por ser pouco mais que uma sucessão de eventos, carecendo de alguma emoção, como por exemplo na dualidade dedicação/exasperação por parte de Jane, transição que achei demasiado repentina, ou ainda quando surge a que seria a futura 2ª mulher de Hawking. Uma narrativa contada de forma pouca inspirada, talvez, que retirou alguma força e interesse da dinâmica do filme. 


Concluindo, não fosse a tremenda composição de Eddie Redmayne, e obviamente a incrível história de vida de Stephen Hawking, e “The Theory of Everything” não seria seguramente tão apelativo.


31 janeiro 2013

Les Misèrables





Tecnicamente, Les Misérables entra em cena com uma mestria irrepreensível. Cenários, guarda-roupa e coreografias conjugam-se habilmente no intuito de seduzir o espectador. E conseguem-no. Pena é que não o cativem, que não o inflamem!

Um filme não pode viver apenas da forma, do deslumbre do olhar. Mesmo um musical. E de facto, não fosse pela entrega de Anne Hathway, pela paixão de Eddie Redmayne, pela dor de Samantha Barks ou pelo burlesco da dupla Helena Boham Carter/ Sacha Baron Cohen, e Les Misérables limitava-se a ser um mero desfilar de canções. No seu conjunto, falta-lhe alma! É algo desolador ver como os miseráveis, os da fome, os da miséria, os da injustiça, foram acossados pelo jugo do coro, sem uma concreta ou intensa voz. O contexto social e político da obra ficou dessa forma, se não esquecido, pelo menos bastante negligenciado, sob uma panóplia de números musicais que, a certa altura, se revelam penosamente longos. Não nego a existência de momentos extraordinários, dos quais destaco o “I Dreamed A Dream” de Hathaway ou o “Empty Chairs At Empty Tables” de Redmayne (e repito, estes dois são verdadeiramente portentosos!) mas penso que Tom Hooper tanto quis ser grandioso que acaba por pecar por um excesso de formalismo e pomposidade, esquecendo-se de desenvolver aceitavelmente quer a narrativa quer as personagens!

Assim, e apesar de algumas excelentes interpretações e sequências contagiantes, Les Misérables falha em transpor toda a carga emocional, histórica e social do épico que a pena de Victor Hugo tão arrebatadamente redigiu, não alcançando sequer a sumptuosidade a que se propôs.