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16 janeiro 2015

Enemy






Chaos is order yet undeciphered. 


Já tinha este debaixo de mira há algum tempo, principalmente por ser uma adaptação do livro “O Homem Duplicado” de José Saramago, de premissa curiosa e desenvolvimento acutilante, propício, como habitual, a uma boa reflexão. Lida a obra, foi então hora de me dedicar ao filme. 

E dedicar não foi uma mera força de expressão…”Enemy” é sem dúvida um daqueles vertiginosos quebra-cabeças passíveis de muitas e díspares interpretações e saúdo-o por isso. Foi habilmente escrito e realizado e Jake Gillenhaal é fenomenal no modo como, através de pequenas nuances, trejeitos, expressões ou gestos, compõe duas (in)distintas personagens. Mas ainda assim não me cativou. 

E porquê, perguntarão? Eu sei que esta não foi uma adaptação per se e, como disse anteriormente, a narrativa em si, mesmo se diferente, foi engenhosamente desenvolvida. Mas a comparação é inevitável e o facto é que se o filme coloca muitas perguntas, o livro levanta muitas mais. É bastante mais desafiador da ética e moralidade da sua personagem principal, conduzindo-a a um destino bem diferente do apresentado no filme, mesmo considerando as várias possibilidades que a sua própria construção oferece.





Teria eu uma outra opinião se não houvesse “O Homem Duplicado”? Talvez…não nego nem a excelência nem a irreverência de “Enemy”, apenas não me encheu as medidas. Assim, apesar das inegáveis qualidades que lhe aponto, para mim “Enemy” acaba por ser inferior a “O Homem Duplicado”, no sentido em que lhe falta o arrojo e a perversão finais que encontrei na obra de Saramago.


18 junho 2011

Eterno Saramago



D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia, que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e
segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistênciado rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. Depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

in "Memorial do Convento"




Não sei se algum dia conseguirei expressar totalmente o que
a escrita de Saramago significou para mim. Há um ano tentei...



Hoje à noite, a SIC passa a primeira parte do documentário "José e Pilar"!

08 outubro 2010

Embargo





Pressente-se Saramago em todos os momentos. Um embargo económico a estagnar uma nação ou um embargo mental e cultural que ultimamente a define? Aposto no último, nessa opressão do sonho e invenção, nesse contraste anacrónico que ironicamente preenche o filme, numa sociedade perdida entre as (des)maravilhas da globalização, que tão fácil e mordazmente nos isola e bloqueia!

E que grande desempenho de Filipe Costa! O seu personagem, dono de uma determinação tão poética quanto inglória, tem uma composição sensível, lutadora, perturbada, sonhadora, desesperada e apaixonada, magnificamente expressa pela amplitude do seu olhar!
Articulando o excelente argumento com a esplêndida interpretação do protagonista, é de realçar ainda a eclética, intimista e invulgar banda – sonora e o trabalho de fotografia, num desolador sépia, que, em conjunto, complementam o retrato desesperante deste país esgotado, indefinido, tristemente suspenso no vazio da impotência!

“Embargo”, sublime adaptação de António Ferreira, entre o cómico e o sombrio, entre o ridículo e o grave, constitui uma fabulosa, louvável e absolutamente imperdível revelação do cinema português!




Assim, repito entusiasticamente: Por favor, não embargar!

19 junho 2010

Memórias de Saramago


16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010




“A finitude é o destino de tudo”

A minha primeira lembrança é a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura. Tinha dez anos.
“A Jangada de Pedra” navegou até às minhas mãos por conselho do meu professor de Língua Portuguesa do 5º e 6ºano. Estranhei, entranhou-se e gostei. Nunca tinha lido nada assim. Mas não percebi completamente e, de imediato, a sua magnitude.
Algum tempo se passou e os seus livros espreitavam por entre as prateleiras lá de casa. Um dia tirei “Todos os Nomes” e, mais uma vez, reagi com encanto e surpresa às suas palavras. A sua tão controversa e criticada “falta de pontuação” não me incomodou. Achei porventura peculiar, mas com toda a certeza desafiante.
A paragem seguinte foi Mafra, por entre as excentricidades e inconsciências de um rei, o elogio a um povo herói, o amor entre Sete-Sóis e Sete-Luas e um padre que queria voar, comandado pelo sonho! O “Memorial do Convento” foi uma viagem de deslumbramento, de aprendizagem, o consolidar de uma paixão que, latente, queria despertar! A riqueza da sua escrita, o simbolismo de cada expressão e frase, a acutilante (e infelizmente actual) crítica social, religiosa, de costumes, a sua reinvenção tão própria, sábia e reflectiva da História enfeitiçaram-me, pura e irremediavelmente! O amor livre, espontâneo e eterno de Blimunda e Baltasar, a irreverência e inconformismo do padre Bartolomeu Gusmão na construção utópica da Passarola são, para mim, um delicioso e refrescante porto a que sempre voltarei!
A curiosidade e expectativa apoderaram-se de mim quando comecei a ler “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Sim, surpreendeu-me; sim chocou-me, mas novamente pela prodigiosa, satírica, envolvente e séria desconstrução de um mito, de um dogma! Jesus Cristo surge humanizado: ama, sofre e também peca. O episódio de Deus, o Diabo e Jesus em conversa no mar, sob o nevoeiro, é memorável, através de uma autêntica análise sagaz e meditativa das intermitências e contradições da Religião e da Vida!
O “Ensaio sobre a Cegueira” foi choque, foi desconforto, contudo uma revelação e um prazer. Sempre presente, a crítica profunda à sociedade; sempre presente, a obrigação de reflectir, tal como em toda a sua obra! O filme “Blindness” foi uma belíssima e certeira adaptação, uma merecida e comovente homenagem!
Pelo meio, desabrochou “A Maior Flor do Mundo”, num delicado, comovente e ensinador livro infantil, mas não apenas para crianças!
Saramago deu mais do que recebeu, não que isso lhe fosse o mais importante. A mim deu-me muito, mais do que conseguirei descrever. De Saramago escritor, ficam os livros com que cresci, reflecti e vi para além das palavras, através da riqueza e simbolismo que marcavam a sua obra, de uma maneira tão simples como grandiosa e verdadeiramente admirável! De Saramago homem, fica-me a memória de um combatente da apatia, da injustiça, do inconformismo, da tirania, um comunista até ao fim, mas acima de tudo, um homem fiel às suas convicções e ideais!
Hoje, ofereço a minha homenagem. Triste, mas convicta de que o seu legado e a sua memória perdurarão, despeço-me do senhor da Azinhaga e de Lanzarote que um dia me ensinou, enriqueceu e maravilhou com o seu dom da palavra! E faço minhas as palavras de Fernando Meirelles: “A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo fugir do clichê, mas definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e mais cego hoje.”


Saramago (1922-2010)



03 abril 2010

Viagem por entre as palavras de Saramago



"Não me aceitas, não me perdoas, Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro, (...)"


in "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", José Saramago



"(...) não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, (...) adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis."

"Ninguém pode ver a sua própria vontade, e de ti jurei que nunca te veria por dentro, mas tu, Baltasar Sete-Sóis, minha mãe não se enganou, quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro. Se eu morrer antes de ti, peço-te que me vejas, Morrendo tu, vai-se a vontade do corpo, Quem sabe."

in "Memorial do Convento", José Saramago




A desconstrução da História.

A desconstrução da Religião.

As subtilezas. O pormenor.

O simbolismo.

A ironia. O sarcasmo. A perspicácia.

O amor.

A realidade.

O sonho.

09 dezembro 2009

Blindness/Ensaio sobre a Cegueira


(Crítica feita na altura da estreia do filme, há um ano atrás)

Fui ver o filme de Fernando Meirelles depois de ter lido o livro de José Saramago, por isso as minhas expectativas eram bastante elevadas!

Após ler o livro, impunha-se uma pergunta: como passar para o ecrã toda a profundidade da obra? Como passar para o ecrã todas as reflexões e pensamentos das personagens, essas personagens sem nome, que experimentam um sofrimento físico e principalmente psicológico inimaginável e que terão de se redescobrir a si próprias, para sobreviveram num mundo de cegueira? As minhas expectativas não foram defraudadas. Meirelles adaptou o livro maravilhosamente, realizando um filme sublime e poderosíssimo! O filme, se bem que talvez de maneira diferente, uma vez que a interpretação de um livro é algo de subjectivo e livre, mexeu comigo tal como o livro, perturbou-me e foi incómodo, o que, posso afirmar, constitui um valente elogio! As passagens mais perturbadoras, como a atitude dos soldados e do “poder” para com os cegos, a podridão e sujidade que assolam o hospício e a tomada de poder dos cegos “maus” que culmina com a arrepiante cena de violação colectiva não deixam lugar para a indiferença! O horror daquela quarentena foi transposto com toda a sua força! Na minha opinião, essa primeira parte do filme é o seu ponto mais forte. A segunda parte, após a saída do hospício, talvez esteja um pouco mais desequilibrada, porque algumas passagens do livro foram eliminadas, mas o filme não perde com isso, porque o espírito da obra está totalmente presente. A opção de fotografia foi bem conseguida: a luz branca envolve-nos e conseguimos sentir a “cegueira branca” quando experienciamos os acontecimentos pela perspectiva dos cegos. Para além do excelente trabalho do realizador e do argumentista, é de salientar igualmente o trabalho dos actores, destacando Julianne Moore. Julianne Moore entra realmente na personagem e é a partir da sua expressividade que acreditamos no seu dilema interior, na sua luta: como ser a única mulher que vê num mundo em que todos estão cegos e não se sentir completamente isolada? Gostei igualmente da interpretação de Alice Braga, uma actriz desconhecida para mim até agora.

“Blindness” é uma belíssima adaptação do romance de Saramago, que consegue transmitir a metáfora descrita pelo autor: estamos muitas vezes cegos em relação ao mundo, apenas porque é mais fácil recusar ver o que acontece à nossa volta do que reagir.

26 outubro 2009

A maior flor do mundo

Convido-vos a assistir a esta encantadora e bonita curta-metragem de animação, inspirada no esplêndido livro infantil “A maior flor do mundo” de José Saramago!
E claro, o convite alarga-se à leitura do livro! Uma excelente história, definitivamente não só para as crianças!
retirado de http://flocos.tv/curta/a-flor-mais-grande-do-mundo/