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25 maio 2013

Side Effects






Numa constante encruzilhada, a ambiguidade ensombra-nos a visão, tolda-nos os passos. Ela nunca sorri, devolve-nos apenas um olhar vazio, ausente. Tentamos imaginar o abismo em que ela se encontra, impotente, achamos que um sentido olhar de preocupação é suficiente para a impedir de cair. “Depression is the inability to construct a future.” Mas agora, esse futuro está à pequena distância de um comprimido por dia. Acenamos, o psiquiatra bem-parecido só pode inspirar confiança, tal como os anúncios sorridentes que pululam de gare em gare. E depois, um crime é cometido. Em choque, procura-se uma explicação. A dúvida surge, subtil e traiçoeira. A questão não é quem foi, antes de quem é a culpa. Uma tríade de suspeição. Eventos precipitam-se, vidas são interrompidas. A incerteza cresce e cresce, num galope de tensão. A moralidade esbate-se perigosamente, num limite cada vez mais vago entre dever e verdade. E de súbito, desilusão.







Frustante. É dessa forma que Soderbergh nos trata. Presenteia-nos com uma premissa inteligente, desafiante e actual. Tem uma Rooney Mara camaleónica e carismática, num misto apaixonante de vulnerabilidade, manipulação e pura maldade. Por que diabos achou que uma vendetta era a forma ideal de fechar o jogo? Sinceramente, para um filme que explora de modo frontal e provocador temas tão sensíveis, este final soube-me a pouco. Ligeiramente preguiçoso. A duplicidade das suas personagens era o seu maior trunfo. Com esta resolução, parece que nos querem convencer da “bondade” e razão suprema de um dos lados.  Que efeito adverso este!


22 janeiro 2012

The Girl With The Dragon Tattoo





Se me pedissem para descrever o filme em breves palavras, de imediato diria: visceral, meticuloso, agonizante e belo. Desde logo, pelo genérico inicial: uma intensa e tumultuosa viagem ao subconsciente das personagens; medos, segredos, fantasmas e desejos num fundo de escuridão e fogo, sob o hino agreste e reinventado de “The Immigrant Song”. Momento que define irremediável e provocantemente o tom do filme: sem limites, sem receios, David Fincher filma de modo vívido e engenhoso a crueldade, o horror e a violência que Stieg Larsson tão cruamente escreveu. O argumento é minuciosamente explorado, contudo a narrativa decorre de forma bastante fluida, distanciando-se do seu homónimo sueco por ser ainda mais agressiva e brusca. Tal deve-se igualmente à indescritível banda-sonora, prodigioso trabalho de Trent Reznor e Aticus Ross que nos envolve numa atmosfera tensa e sufocante de mistério e dor. Atmosfera essa extraordinariamente personificada por Rooney Mara, que com uma entrega surpreendente e arrepiante compõe, de forma fiel, o turbilhão que é Lisbeth: forte, inteligente, vulnerável, frontal, doce, lutadora, torturada e implacável. A seu lado, um desgrenhado e inquisitivo Daniel Craig assume habilmente a integridade e o charme de Mikael Blomkvist. 

Inebriante e perturbador, “The Girl With The Dragon Tattoo” distingue-se da versão sueca pela sua completitude e cadência que o tornam mais eloquente e labiríntico, num impetuoso conto de perversão e maldade humanas em que a esperança surge efémera e gélida.