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31 janeiro 2015

Night Will Fall






“Unless the world learns the lesson these pictures teach, night will fall.” 


Intenso e agonizante, “Night Will Fall” cumpre o seu propósito: informar, chocar, manter viva a memória do Holocausto. Exactamente a intenção do que seria o documentário original, German Concentration Camps Factual Survey, de título cru e eficaz, pois idealizado para testemunhar e preservar as provas das atrocidades nazis, aquando da descoberta e libertação dos campos de concentração, para que o mundo as conhecesse e nunca as negasse.

Night Will Fall reconstrói brilhantemente, utilizando uma grande parte dessas imagens originais e recorrendo a depoimentos dos sobreviventes, dos militares que libertaram os campos e do pessoal envolvido no filme, uma dupla narrativa: por um lado, o processo técnico da elaboração do documentário, digamos assim; por outro, um testemunho pessoal do que significou a Libertação e o confronto dos envolvidos com as barbaridades do regime nazi. É arrepiante. 

A memória colectiva guarda há já muito um quadro desta realidade. E contudo, ninguém poderá ficar indiferente, e ainda bem, ao que nos é mostrado e contado, desolador, nauseante, atroz. 


“Our instructions were to film everything 
which would prove that this had actually happened. 

It would be a lesson to all mankind, as well.”
(Sidney Bernstein)


27 janeiro 2015

Auschwitz - 70 anos



(Texto originalmente publicado no blogue "Nunca te olharei por dentro")


Auschwitz. Penso que vi o nome pela primeira vez quando li o “Diário de Anne Frank”; dizia, no prefácio, que era um dos campos para o qual a família tinha sido enviada. Aos 10 anos, pouco ou nada sabia sobre a 2ª Guerra Mundial ou o Holocausto. Do “Diário…” permaneceu a admiração, a reflexão, o desconforto; o nome, esse tal, ficou gravado como uma memória distante. Depois chegaram as aulas de História: fascismo, a ascensão de Hitler ao poder, nazismo, anti-semitismo, a invasão da Polónia, 3 de Setembro de 1939, Aliados, Dia D, conceitos e acontecimentos, os campos de concentração, extermínio, e as imagens. Corpos emaciados, deitados ou de pé naqueles tabiques, olhar vazio. Não eram tão “gráficas” como as que mais tarde pesquisei e vi, mas já indiciavam o horror que queriam denunciar. Antes ou depois disto, não consigo precisar, vi na televisão o filme “A Vida É Bela”e depois, mais tarde, “A Lista de Schindler” e assim também fiquei mais próxima do tema do Holocausto. Quis saber mais, devo ter procurado nas enciclopédias Larousse dos meus pais, se calhar já alguma coisa na Internet. Era impressionante e desconfortável o que fui aprendendo, era um horror inimaginável, profundo, atroz! Lembro-me de ler que Eisenhower ordenou que se fotografassem e filmassem os campos de concentração, para que a memória não fosse perdida ou, e isto é assustador, não fosse negada. Na Alliance Française, um dos exercícios passava por ler notícias ou crónicas, e já se falava da Frente Nacional e da sua xenofobia, depois na televisão também se começou a falar deste partido e do seu (execrável) líder Le Pen, que dizia, entre muitas outras, barbaridades também sobre o Holocausto.





Auschwitz e Holocausto são indissociáveis. Auschwitz será certamente o campo de concentração e extermínio mais conhecido. Mas não era, infelizmente, o único; existiam dezenas espalhados pelo Reich. Uns, como Treblinka e Sobibór, tinham como único objectivo o extermínio, eram campos de morte. Auschwitz começou como um campo de concentração, de trabalho, só mais tarde passou a funcionar também como um de extermínio. Porquê este relevo, este “fascínio”? Não será difícil supor as razões. Falar de Auschwitz é falar de mais de um milhão de mortos, um milhão dos quais judeus. Falar de Auschwitz é falar de Mengele e das suas abjectas experiências. Falar de Auschwitz é ver as fotografias dos sobreviventes, dos cadáveres, dos crematórios, dos pertences abandonados. Falar de Auschwitz é relembrar o hediondo significado das palavras: “Arbeit macht frei / O trabalho liberta”. Falar de Auschwitz é ouvir e ler os testemunhos dos sobreviventes. Falar de Auschwitz é sentir-se “sufocado” pelo horror. Há uns tempos vi “Nuit et Brouillard”, excelso documentário de Renais, e assistir àquela sucessão de imagens de horror e de desumanidade rouba-nos de facto algo de nós, é impossível permanecer o mesmo. Falar de Auschwitz é também perguntar como e porquê e não esquecer as respostas. É importante conhecer e reflectir sobre a ideologia que conduziu ao Holocausto. O anti-semitismo esteve sempre presente nos discursos de Hitler. As restrições aos judeus começaram muito antes da guerra. A violência também; não esqueçamos, por exemplo, a “Kristallnacht”. E contudo, ser confrontado com a progressão da Solução Final é deveras desolador e assustador, porque demonstra, com uma crua clareza, que não houve limites para a depravação e monstruosidade do regime nazi. As câmaras de gás, em todo o seu horror, foram a arma eficaz e célere de assassinar milhões de prisioneiros. Mas ler, em “Auschwitz – Os Nazis e A Solução Final”, que a sua idealização surgiu pela procura de “um método que provocasse menos danos psicológicos “ aos nazis é algo tão estranho quanto revoltante. “Era, no entanto, certo para os nazis em Auschwitz que o uso do Zyklon B tornava o processo mais «suave». A partir de então, os assassinos já não tinham de olhar as vítimas nos olhos, enquanto as matavam. Hoess relatou como estava «aliviado» por se ter encontrado aquele novo método e como isso o «poupava» a um «banho de sangue». Estava enganado. O verdadeiro banho de sangue mal tinha começado.”

Ler estes relatos é arrepiante. Ler sobre as famílias separadas, o transporte em vagões como animais, as selecções, a tortura e violência perpetradas pelas SS e pelos guardas, as experiências médicas, a fome e o frio, a perda da dignidade e da identidade, as marchas da morte, é sem dúvida arrepiante. É, e recupero uma frase que escrevi sobre “Nuit et Brouillard”, perder “algo de nós para que nunca esqueçamos”. E assim, falar de Auschwitz é também, e principalmente, nunca esquecer. Falo agora de Auschwitz como um símbolo. Um símbolo da perseguição e extermínio dos judeus, de outras minorias e opositores. Um símbolo dos outros campos de horror, Dachau, Treblinka, Bergen-Belsen, Chelmno, Buchenwald, citando apenas alguns. Um símbolo do extremismo e da desumanidade. Do mal absoluto. Um símbolo da “percepção do que seres humanos educados e tecnologicamente avançados podem fazer desde que possuam um coração frio” (in Auschwitz - Os Nazis e A Solução Final). Por isso, é vital, e permitam-me a repetição, nunca esquecer. Lamento aqueles que não conhecem esta realidade da História, mas assustam-me ainda mais aqueles que o minimizam, o desprezem, o negam. É simplesmente abjecto. O Holocausto foi um acontecimento único, como todos os acontecimentos são. Mas, e volto ao livro “Auschwitz…”, “julgada à luz do contexto de meados do século XX, a cultura sofisticada da Europa, Auschwitz e a Solução Final dos nazis representam o acto mais baixo em toda a história”. Aprendamos com o que se passou, então. Não esqueçamos nunca, então. Recordemos, sempre, para assim honrar as vítimas e os sobreviventes, para não repetir um passado que não é assim tão distante. 






 (imagens retiradas do Pinterest)

22 novembro 2014

Nuit et Brouillard





É um murro no estômago que como que nos drena todo e qualquer sentimento de esperança, de felicidade. Que nos rouba algo de nós para que nunca esqueçamos o que vimos. De que outra forma podemos reagir a tal sucessão de horror e monstruosidade?

“Nuit et Brouillard” foi um dos primeiros projectos a lidar abertamente com a realidade do Holocausto. É de forma crua e direi “descomplexada” que a retrata, intercalando de forma extremamente perturbadora a quietude do agora (1955) com o horror vivido nos campos de concentração. Um horror indescritível, inumano, ditado pela violência física e psicológica, pela perda de dignidade e pela perda da própria identidade. São os cadáveres emaciados, a longa extensão de cabelos femininos, os corpos esqueléticos. São os olhos abertos na morte, os objectos e roupas dos prisioneiros, os ossos e tecidos carbonizados. É um horror que nos persegue pela sua magnitude e calculismo, atormentando-nos não só com a perenidade das suas imagens mas também com a inevitabilidade das questões “Como foi possível que esta abominação tenha acontecido, como foi possível construir e ter posto em marcha esta incansavelmente eficaz máquina de morte?”.

Indiscutivelmente gráfico e chocante, o documentário de Resnais não se esconde do seu objectivo nem lamenta a sua frontalidade. Porque o seu efeito não nos deve nunca abandonar para que a memória deste horror nunca se desvaneça na “noite e no nevoeiro”. 


“Il y a nous qui regardons sincèrement ces ruines comme si le vieux montre concentrationnaire était mort sous les décombres, qui feignons de reprendre espoir devant cette image qui s’éloigne, comme si on guérissait de la peste concentrationnaire, nous qui feignons de croire que tout cela est d’un seul temps et d’un seul pays, et qui ne pensons pas à regarder autour de nous et qui n’entendons pas qu’on crie sans fin.” 

Excerto do texto de Jean Cayrol, narrado por Michel Bouquet no filme 
 (retirado de: http://www.cineclubdecaen.com/realisat/resnais/nuitetbrouillard.htm)