09 fevereiro 2016
The Hateful Eight
A cena inicial é desconcertante. A cruz flutuante e perturbadora no meio de nada, imersa na alva neve, que dita o tom do filme. Aliada à inquietante banda sonora de Morricone, temos sem dúvida algo digno de antologia!
Tarantino regressa com a sua tão bizarra e louca execução, com os seus longos e eloquentes diálogos e com a sua imensidão de violência e sangue! Mas bem que leva o seu tempo...e confesso que inicialmente me aborreceu um pouco, não lhe encontrava um rumo. Contudo, a partir do momento em que todas as personagens ficam confinadas à Minnie Haberdashery, a dinâmica alterou-se, a narrativa tornou-se mais cativante e o meu entusiasmo renovou-se!
A narrativa pode não ser propriamente original mas é coesa e apelativa. Tal como as personagens, esses oito odiados que nos deixam agarrados ao ecrã, de coração dividido! Destaco Jennifer Jason Leigh, que nos oferece uma personagem visceralmente repulsiva e cómica!
"The Hateful Eight" não é um dos meus favoritos de Tarantino: não é tão frontal e visceral como Reservoir Dogs, não tão cool como Kill Bill, não tāo incisivo e vibrante quanto Inglorious Basterds! Mas Tarantino raramente acerta ao lado e The Hateful Eight é ainda um bom filme, irreverente e desafiante!
07 fevereiro 2016
Mad Max: Fury Road
Oh what a movie! What a lovely movie!
George Miller swept us of our feet with a non-stop crazy beautiful ride of violence, shiny metal, action and feminism!
Oh man, how can one not be overwhelmed by this intense and extravagant chase of freedom and redemption? Most notably, one that doesn´t even need dialogue, one that captivates you with mesmerizing and colourful visuals! How can one not be overwhelmed by the sunset fire of the desert or by the blueish moonlight of the wasteland? And how can one resist to a cinematography that acts like the driving force of the movie?
The narrative is somehow simple and undoubtedly straightfoward but that is actually an enormous strenght! There are no preambles nor voiceover explanations: things just happen, the characters act upon them and you watch relentlessly! For instance, you don´t see the reality of the Wives. But you don´t need to...because you can imagine the horror and share their disgust and will to fight! And that's the kind of logic that makes "Mad Max: Fury Road" one of a kind!
I have to say I didn´t imagine that I would have so much love and enthusiasm for this movie! I didn´t watch the trilogy (sure, crucify me) I was just familiar with the basic...But I just absolutely loved this over-the-top insane and inteligent post-apocalyptic opera, that perfectly put together a smashing entertainment with a simple yet incisive and well-played narrative of rebellion and fight for justice, equality and freedom!
(Oh...and from a display of such irreverent and exaggerated characters, what movie can brag of still having a character so crazy and cool like The Doof Warrior?)
01 fevereiro 2016
Star Wars: Episode VII - The Force Awakens
E está aqui representado o meu conhecimento sobre Star Wars! Ok, sei um pouco mais, gostei bastante dos episódios IV a VI mas na verdade não sou uma fã no completo sentido da palavra. Posto isto, que posso eu dizer sobre o episódio VII?
Bem...que me trouxe à memória por bastas vezes o episódio IV, numa história e personagens quase daí decalcados! Seja o mistério sobre a origem dos protagonistas, a construção do vilão ou até mesma a chave para a destruição da nova "Estrela da Morte", tudo revisita o passado e nem sempre de forma positiva! É que apesar do ritmo vibrante e enérgico da maioria do filme (e aí JJ Abrams fez um bom trabalho), este regresso acaba por ser pouco surpreendente e entusiasmante! E não apenas por esta frágil emulação...as novas personagens são apenas uma colagem de estereótipos: a Finn e Rey não lhes é dado espaço para crescerem para além do superficial (embora se note o esforço de Daisy Ridley) e Poe então é completamente desperdiçado! E quanto a Kylo Ren? Seria sempre hercúleo suceder a um marco tão carismático como foi Darth Vader mas para mim falharam redondamente! Quase não se sentiu a aura de maldade e crueldade que lhe deviam ser natas, por isso foi uma desilusão...e uma desilusão em vários pontos chave da história!
Concluindo, o Episódio VII é divertido e um bom entretenimento mas não se aproximou da emoção dos seus antecessores (IV a VI, bem entendido)! Sendo este um regresso e uma reinvenção da saga, para mim ficou abaixo das expectativas!
04 janeiro 2016
Crimson Peak
A crítica contém spoilers!
"Crimson Peak" é, com grande desgosto meu, uma bela promessa falhada!
O seu mistério desvanece-se efusivamente ainda sem o primeiro acto ter terminado: o carácter dos irmãos é precocemente revelado e a natureza da sua relação é expressa de forma gritante no olhar da personagem de Jessica Chastain na cena da valsa: aquele não é algo fraterno, antes um fogoso ciúme carnal!
Aura de mistério desfeita, que resta?
É verdade que a nível visual o filme é soberbo em compor a atmosfera saturada e pesada própria de um romance gótico, quer na construção da casa, como espaço físico e como entidade, quer na criação dos fantasmas, esses que funcionam mais como subtexto do que como impulso do filme. Não nego que tal me enlevou...Contudo, sem um desenvolvimento forte e certeiro da narrativa, essa atmosfera, apesar de bela, é insuficiente!
Além disso, nem as próprias interpretações são especialmente cativantes: se Jessica Chastain é de um exagero forçado, Tom Hiddleston e Mia Wasikowska são, digamos, mortiços!
Esperava muito, mas muito mais de "Crimson Peak" que, ao invés de ser portentoso e denso e intrigante na construção deste mistério gótico, se revela apenas como de execução mediana e nada satisfatória!
25 outubro 2015
Sicario
O horror é imediato, chega-nos em fila descamuflada e mutilada. É o jugo dos cartéis de droga mexicanos, de que ouvimos falar de forma diluída e ocasional nas notícias.
Villeneuve filma a imensidão das paisagens, a multiplicidade dos carros em carreiro na fronteira, a aridez do horizonte, como espelho desta problemática. A praga que se espalha, disseminando morte e violência, cujo fim não se vislumbra.
"That's what happens when you cut a chicken's head off."
O plano é aparentemente simples. E progressivamente amoral, como descobrimos ao lado de Kate, numa composição tão destemida quanto frágil de Emily Blunt. Mal com mal se ataca, um mal menor para um bem maior. Magnificamente personificado por Benicio del Toro, numa interpretação que que faz do silêncio e do mistério os seus trunfos.
Sicario constrói a sua intriga de forma inteligente, numa lógica livre do "preto e branco" dos bons e dos maus. É desafiante e nunca gratuito. Robusto e nunca condescendente. Por isso não deixo de ter um sentimento algo agridoce para com o seu final. Pareceu-me surpreendentemente redutor e não pensei que o filme fosse enveredar por essa vertente de "vendetta". Julgo que tenho um qualquer problema com os finais de Villeneuve, aconteceu-me o mesmo com "Enemy".
Ainda assim, constitui apenas um pequeno percalço. Sicario afirma-se como um thriller sólido e desafiador, fortalecido pela exímia composição de del Toro, pela desoladora e bela fotografia e pela realização intrigante de Villeneuve. E sem dúvida pela desesperante constatação final: o horror mantém-se, a normalidade do dia-a-dia é apenas uma casualidade...
03 outubro 2015
As Mil e Uma Noites: Volume 1 - O Inquieto
Que posso eu escrever sobre "As Mil e Uma Noites - O Inquieto"? Aproprio-me das palavras do realizador: "Sinto-me burra e a abstracção faz-me vertigens." Que posso eu escrever? É difícil. Achei-o mirabolante e corrosivo, em forma e conteúdo. Complexo e de momentos sublimes. Ruína a cobrir o sonho, miséria abraçada ao amor, num retrato crítica mordaz e acutilante ao país despedaçado e inquieto. Inquieto da incerteza dos dias, inquieto do desalento, inquieto pela esperança, inquieto pela longevidade dos néscios que nos governam. Eu, como tantos outros, sou esse país. Venha "O Desolado"!
09 setembro 2015
Hannibal - Folie À Deux
A crítica que se segue contém spoilers!
"That’s all I ever wanted for you, Will. For
both of us.
It’s beautiful.”
“The Wrath of the Lamb”. A ira do
inocente. Ou o sacrifício do inocente? E poderemos falar verdadeiramente de
inocência? Do desenho passou-se à concretização – Maybe this is my becoming. A
comunhão consagrada ao negrume do luar. A sincronia dos corpos e das mentes,
num pas-de-deux extático e fatal. O abismo nunca foi tão perturbadoramente belo
e desolador.
30 junho 2015
10 junho 2015
Antipasto: a "joie de vivre" de um psicopata
Crítica com spoilers
Por Antipasto designa-se tradicionalmente o primeiro prato de uma refeição italiana formal. E não, não é apenas um conjuntinho de aperitivos para enganar a fome – esta assembleia de carnes fumadas, cogumelos, azeitonas, queijos e muito mais marca oficialmente, com pompa e circunstância, o início da refeição.
Ai ai, mas por que raio vim parar a um blogue de culinária?! Como é que eu fiz isto?
Calma leitores, estais no sítio certo…mas esta introdução gastronómica surge como efectivamente necessária e justificada! É que Antipasto, o tão esperado regresso de “Hannibal”, pode inicialmente parecer deslocado, pode de facto parecer meramente um prelúdio ou uma distracção da questão principal que nos tem assombrado: o que aconteceu depois de Hannibal sair daquela casa manchada a sangue e chuva? Quem esperava sirenes de ambulância e os nomes dos sobreviventes pode ter-se sentido defraudado (eu senti-me algo desorientada, pelo menos) mas por muito pouco tempo, certamente. É que Antipasto fez jus ao seu nome e foi indubitavelmente um delicioso, hipnotizante, sumptuoso, tenso e sempre enigmático começo de temporada! Uma misteriosa e chique soirée em Paris que, marcada a sangue, nos conduz a Florença, berço do Renascimento. E haverá melhor lugar que este para albergar Hannibal, homem dos setes ofícios e artes, culto, inteligente, perfeccionista, maquiavélico e carismático? (sim, eu não me esqueci que ele é um psicopata/canibal/assassino em série mas não se lhe podem negar estas qualidades!). Pois é aí que o encontramos, luxuosamente instalado e belissimamente acompanhado pela não menos enigmática e atraente Drª Bedelia du Maurier, numa ligação tão interessante quanto perturbadora! Mas já lá iremos…
Antipasto centra-se exclusivamente nas interacções de Hannibal após Mizumono: a relação com Bedelia vai sendo justaposta com a relação com alguém do seu passado – que não, não é Will Graham, é nada mais nada menos que o Dr. Gideon, sob a forma de memória ou sonho. O famigerado Dr. Gideon, também ele um louco e um assassino, que, como já adivinhávamos da temporada anterior, sofreu um destino, se não inqualificável, no mínimo perturbadoramente aterrador, às mãos de Lecter. E assim surge, num passado a preto e branco, como jugo moral de Hannibal, como a vozinha na consciência que ele possuiria se não fosse, lá está, um autêntico psicopata! Cada minuto destas conversas é ouro, não só pelo seu teor (como se de um desvendar da psique se tratasse), como pela extraordinária composição de Eddie Izzard, que naquele tom cadenciado e sólido é ainda imponente e desafiador! O quão de força é ouvi-lo retorquir para Hannibal que espera o dia em que este estará na mesma posição que a sua? E tão retorcido se afigura agora o dito “somos o que comemos”? Que arrepiante cadeia alimentar…
Que o diga Bedelia, a resguardar-se num regime de ostras, trufas brancas, nozes…ou como ela tão eloquentemente afirma: “coisas livres de um sistema nervoso central”…Mal ela sabia que esse era precisamente o conteúdo das refeições dadas aos porcos no Império Romano antes de serem abatidos…Esta cena foi verdadeiramente hilariante, com o hesitante engolir em seco de Bedelia e o regozijo inquisitivo de Hannibal! E regressa novamente a questão, uma das que nos intriga desde aquele alucinante e sangrento final de temporada: porque está Bedelia ao lado de Hannibal, porque voltou e agora o acompanha nesta fuga? É medo, do género, se não podes fugir junta-te a eles? É loucura partilhada? É curiosidade? Até Hannibal levanta a questão, naquele ameaçador e provocante “Are you observing or are you participating?”. Bedelia é, desde o início, uma das personagens mais intrigantes da série; não conhecemos o seu passado, não conhecemos as suas motivações. O mostrar do seu ataque (com o bónus de um cameo de Zachary Quinto) ofereceu-nos mais perguntas que respostas, quer quanto à sua personalidade quer quanto à extensão e profundidade do seu relacionamento com Hannibal. E quão sublime é Gillian Anderson na composição desta personagem? Infinitamente sublime! E intemporalmente bela e sofisticada, intermitentemente frágil e forte, ultimamente carismática! Bravo!
E quanto a Hannibal Lecter? Ora, ora, Hannibal está nas suas setes quintas, a alimentar o espírito e o corpo, numa busca idílica pela satisfação e pela perfeição! “You forgot ethics. You only care about esthetics now“, retorque Bedelia a Hannibal, numa daquelas suas provocações tensas. E talvez assim seja; luxuosamente instalado em Florença, Hannibal nunca cessa de jogar o jogo, de maquinar, de planear o seu bem-estar máximo, aproveitando e deturpando a beleza que existe no mundo, daí a “joie de vivre” a que me refiro no título. E se alguém se atravessa no seu caminho…bem, já o conhecemos suficientemente bem para adivinhar o que ele lhes reserva não é? E volto ao confronto entre Bedelia e Hannibal, no qual ela, entre o temor e a curiosidade, é forçada à constatação que o observar não existe, que o sangue da vítima que lhe mancha o rosto é prova da sua participação! E enfrentar o ar de completo prazer e superioridade de Hannibal face a tudo isto é não só incómodo, como nos faz balançar entre o desprezo e a admiração que possamos sentir por esta personagem! Um excelente trabalho de Madds Mikkelsen, que não destoa daquele a que já nos tinha habituado!
Despeço-me com uma nota final para a opulenta e hipnotizante estética da série, que se omnipresente desde o seu início, é sempre digna de nota!
Antipasto é um regresso que podemos classificar como mais contemplativo e mais pausado, mas nem por um minuto menos tenso e intrigante. Permitiu explorar a relação entre Bedelia e Hannibal e até a sua própria psique, ainda que nos dando mais questões que respostas. Solidamente desenvolvido e interpretado, Antipasto marcou o ritmo para uma temporada que se afigura como deliciosa e perturbadoramente avassaladora!
01 junho 2015
Quinta Temporada de Game of Thrones - Série versus Livros (Parte 2)
E o sol brilha, e os passarinhos chilreiam, e hoje até é o Dia da Criança...haverá altura melhor para continuar a falar deste modelo tão tradicional e puro de conto de fadas que é "Game of Thrones"?
Vou então falar agora das personagens cujas tramas não foram alteradas e como a sua adaptação está a correr (relembro que esta análise só vai até ao sexto episódio desta temporada, por isso à data desta publicação é certo e seguro que novos desenvolvimentos já tenham ocorrido...mas após o final desta temporada irei fazer uma crítica mais global...so, do not fear!)
Mais uma vez, seguem-se SPOILERS!!!
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