16 setembro 2014

Lucy







O timbre profundo e solene de Morgan Freeman tem tanto de calmante como de convincente. “Só usamos 10% do nosso cérebro. O que aconteceria se conseguíssemos desbloquear as áreas esquecidas?”. Porque não? A questão premente não tem a ver com a falsidade da premissa (estamos no terreno da ficção científica, há margem de manobra!) mas sim com o seu aproveitamento enquanto motor do filme! E que posso eu dizer quanto a isso? Bem, parece-me que Besson só utilizou uns 65% das suas capacidades… 

O filme até começa com garra: as sequências que vão desde o aprisionamento de Lucy até à sua transformação e vingança são sem dúvida vibrantes e entusiásticas! Scarlett Johansson assume firmemente essa postura de “common girl turned super woman!”, se tal se pode dizer! No entanto, a partir desse momento, os seus poderes sobre-humanos são apenas um artifício para conduzir o filme numa sucessão previsível de clichés, tiroteios e confrontos finais…Ora bem, não se pedia nenhuma dissertação (que o filme nem joga nesse campeonato) mas custava muito ter-se focado mais no dilema entre as potencialidades e os riscos de Lucy (assim à semelhança da caixa de Pandora), por exemplo, do que nos oferecer o desenvolvimento medíocre que já vimos tantas vezes? Nem vou falar do final, até porque neste momento nem sei se gostei ou desgostei, mas por um lado acho que, mais uma vez, foi uma conclusão fácil…






Em suma, “Lucy” assume-se como um entretenimento (demasiado) descomprometido, ainda que agradável, deixando dessa forma um certo amargo de boca pelo desaproveitamento das suas potencialidades!


20 julho 2014

The Strain (2014): Night Zero



“O mal seguia-o sempre de perto.”



A seguinte crítica contém spoilers!!!





“A Estirpe”, primeiro da trilogia escrita por Guillermo del Toro e Chuck Hogan, foi para mim uma leitura absolutamente assombrosa! Uma história magistralmente contada e desenvolvida sob um ponto de vista surpreendente e inovador (Vampiros descritos como uma infecção vírica de proporções apocalípticas? Contem comigo!), imersa numa atmosfera quase sufocante de tensão, gore e suspense! Escusado será dizer que devorei o livro num piscar de olhos, sedenta por mais! Por isso, quando soube da adaptação ao pequeno ecrã, fiquei extremamente curiosa e ansiosa por conhecer o resultado final. E ora bem, o que é que eu posso dizer sobre o piloto, “Night Zero”?

Mixed feelings, mixed feelings everywhere! E começo já pelos pontos negativos, para não deixar dúvidas! O primeiro é gritante e corrói logo a tensão e sobressalto permanentes que o espectador deveria sentir: não precisam de mostrar logo tudo, que raio! Não percebi porque mostraram logo o Mestre no avião, ou o ataque do Mestre ao controlador aéreo, ou o ataque dos recém-infectados na morgue! Não poderiam construir um pouco mais de dúvida e especulação em redor do que se passou naquele avião ao invés de nos espetarem logo na cara, sim, são vampiros?! O segundo ponto está intimamente relacionado com o anterior: devia ter sido dado mais enfâse à análise do avião e dos cadáveres, às diversas anomalias que um e os outros apresentavam. Eu percebo que o livro é o livro e a série é a série, ou seja, nem tudo pode ser apresentado como foi descrito, mas esse acumular de inconsistências e questões é tão brilhantemente desenvolvido no livro, contribuindo para o seu suspense, que foi uma pena ver a forma atabalhoada como essa parte foi mostrada neste episódio! Até digo mais, a cena em que a menina regressa a casa do pai provocaria mil vezes mais impacto e incredulidade se todos esses aspectos que referi ainda não tivessem sido mostrados! E quando é o próprio Guillermo del Toro a realizar este episódio, ainda fico mais surpreendida por estas opções...






Mas nem tudo foi mau, nada disso! A primeira impressão dos protagonistas foi positiva, Corey Stoll como Ephraim Goodweather mostrou mais carisma do que eu esperava e também gostei da interpretação de David Bradley como Abraham Setrakian (mesmo com os Red Wedding feelings…não, estou a brincar). E apesar das deficiências apontadas a nível da construção do episódio, ainda se conseguiu sentir tensão e mistério, principalmente na inspecção ao avião e na tal cena da menina com o pai! E pressinto um favorável nível de gore, por isso, vamos em frente!


Concluindo, não foi um episódio piloto assombroso, que nos cativa de imediato. Obviamente que conhecendo o material de origem, as comparações são inevitáveis e o apontar das falhas é também mais fácil, provavelmente! Contudo, visto que este episódio também demonstrou o seu ar de graça, estou disposta a dar uma oportunidade à série, esperando que esta consiga de facto transmitir o espírito do livro e me faça, tal como ele, ficar sedenta por mais!


08 junho 2014

X-Men: Days of Future Past



Ora bem, aviso já que nunca li os comics e o que sei do universo X-Men é um misto de cultura geral (pode chamar-se assim?), visualização dos outros filmes e coisas que fui pesquisando por essa Internet fora. Por isso, esta crítica não vai abordar a fidelidade à obra original e afins, simplesmente porque não sou capaz de a avaliar...






Posto isto, o que me seduziu no “X-Men: First Class” foi a densidade emocional que imprimiram às personagens (por vezes coisa rara neste mundo das adaptações), a profundidade da relação entre Charles Xavier/Professor X e Erik Lehnsherr/Magneto e a qualidade do argumento. Sem sombra de dúvida, e de forma apaixonante, “X-Men: Days of Future Past” mantem essa estratégia de sucesso, declarando-se como um revigorante, invulgar e entusiasmante blockbuster! 
Em termos de argumento, temos uma história tanto intrigante como sólida, mesmo envolvendo o complicado tema das viagens no tempo. A sua resolução deixou-me satisfeita, porque me pareceu seguir uma progressão lógica, pelo menos de imediato; só fiquei com algumas questões sobre como esta interferência alterará o futuro e que consequências terá, tendo em conta o que a trilogia anterior nos revelou.
A nível de interpretações, bem, Fassbender e McAvoy são simplesmente incríveis, incorporando nas suas personagens um carisma palpável: um Magneto copiosamente maquiavélico e um debilitado Professor X numa jornada de “auto-descoberta”, se assim o quisermos pôr. E, já agora, qualquer diálogo, confronto, interacção entre os dois é terrivelmente empolgante e hipnótica, sem exageros! Jennifer Lawrence, embora uns furos abaixo (excepção feita à cena na cabine telefónica) não desilude como Mystique. Peter Dinklage, de Lannister a vilão, é convincente, mas não tão temível como eu imaginei. Tive foi pena que o tempo de ecrã de McKellen/Stewart não tenha sido maior…E quão cool seria um confronto entre o Magneto do futuro e o do passado, tal como aquele a que tivemos direito com o Professor X? 





Por último, qualidade técnica irrepreensível e nota positiva para o factor “coolness” que se respira (e ao qual First Class já nos habituara), quer pela época dos seventies, quer pelo modo como muitas das sequências nos foram apresentadas! 
E assim, sem artifícios desnecessários, “X-Men: Days of Future Past” afirma-se como um notável blockbuster, de excitante e inteligente execução! 


E agora, seguem-se SPOILERS!!!

12 março 2014

Las Brujas de Zugarramurdi (Fantasporto 2014)






Dono de um invejável humor negro, desde logo patente nos créditos iniciais, "Las Brujas de Zugarramurdi" apresenta-nos uma mistura mirabolante de horror e comédia que nos mantém entusiasticamente entretidos ao longo das suas quase duas horas!
O sarcasmo e a ironia imperam nesta história repleta de um absurdo e inflamado sexismo, a coberto do tanto "assustador" quanto risível sobrenatural!
Hilariante e crítico, "Las Brujas de Zugarramurdi" assume-se como uma proposta irrecusável, segura de nos deixar afincadamente bem dispostos!


11 março 2014

The Eternal Return of Antonis Paraskevas (Fantasporto 2014)





Talvez um dos filmes que mais hesitante e dividida me deixou nos últimos tempos. Da desconhecida Grécia (para mim), chega o peculiar conto de um homem, outrora áureo apresentador de um talk-show matinal, que finge o seu desaparecimento de forma a capitalizar as audiências.

Isolado num hotel, a sua rotina é desoladora: alimenta-se de incontáveis pratos de esparguete; desbobina, de forma ausente, as características do hotel naquilo que deveria ser o relato da sua estadia; experimenta, vezes sem fim, e sem sucesso, a cozinha molecular; revisita o seu passado, assistindo em loop, aos DVDs com o seu best-off profissional. O seu único contacto com o exterior é igualmente tormentoso: a procura incessante de notícias sobre o seu suposto rapto. Tudo isto nos é mostrado uma e outra vez, com o protagonista, sempre de semblante carregado, a afundar-se progressivamente numa dúbia e depressiva condição.

"The Eternal Return of Antonis Paraskevas" constrói assim, de modo invulgar mas assertivo, uma dura crítica à sobre-exposição e manipulação mediática dos dias de hoje, não se alheando ainda da realidade económica do seu país. Ora quão sarcástica pode ser a sobreposição do estado mental do protagonista com as notícias relativas à intervenção do FMI em Portugal nos anos 80 e à entrada da Grécia no Euro?

Enquanto o filme manteve esta abordagem, apesar de algumas decisões definitivamente questionáveis ou estranhas, ainda me conseguiu manter interessada. Contudo, a sua porção final manifestou-se como precipitada e incongruente, abalando de forma significativa um filme que já carregava às costas uma estrutura deveras introspectiva e pausada e um tom por vezes pretensioso.


10 março 2014

Big Bad Wolves (Fantasporto 2014)






A introdução define o tom. Tenso, enigmático, desconfortável. Um sapatinho vermelho que clama por sangue. Quem são os lobos maus? Gritos, ossos quebrados, provocação. Tortura, desespero, vingança. "Maniacs are afraid of maniacs."

É com arrojada mestria que "Big Bad Wolves", notável e arrepiante thriller, consegue transtornar e desafiar o espectador, deixando-o em suspense até ao último momento! Habilmente construído e interpretado, misturando o registo slasher com pontuais toques de humor, é revigorante e incómodo no seu desenvolvimento, mordaz na sua ousadia, vibrante e inteligente!

Sem dúvida, uma das mais entusiasmantes e intensas experiências cinematográficas de 2013!


Shield of Straw (Fantasporto 2014)





Venderias a tua honra por um bilião de yens?

É esta a excitante questão que move o percurso de "Shield of Straw", inicialmente desenvolvido de forma acutilante e enérgica. No entanto, essa mesma questão torna-se ultimamente demasiado repetitiva e também longa, a partir do momento em que o filme não evolui para além de uma mera sucessão de similares eventos, sem transmitir verdadeira garra ou suspense.


09 março 2014

Love Me (Fantasporto 2014)





Um "desfado" de amor sob o gélido capricho de inevitáveis idiossincrasias de tradução e tormentosos demónios pessoais. 

Co-produção turco-ucraniana, "Love Me" revela-se surpreendentemente formoso e desesperado, possuidor de um delicado argumento, magnificamente explorado, e de impressionantes e agridoces interpretações! Num filme propositadamente parco em diálogos, é sublime a forma como os actores valorizaram a expressão corporal na composição das suas personagens!

Íntimo e virtuoso, "Love Me" distingue-se de forma audaz pelo seu tom não convencional, que não só lhe acrescenta espontaneidade e beleza, como, acima de tudo, identidade.

What Maisie Knew (Fantasporto 2014)







Uma história simples pode ser igualmente uma excelente história. Adaptando, com alguma liberdade, o romance homónimo de Henry James, "What Maisie Knew" encara os temas aí versados com garra, sensibilidade e franqueza. "What Maisie Knew" é exactamente isso: a perspectiva de Maisie face ao divórcio (conflituoso) dos pais e às consequências dessa decisão. É portanto um olhar que mistura inocência e confusão, tristeza e brincadeiras, mágoa, ultimamente maturidade. A pequena Onata Aprile é encantadora e extraordinariamente credível nessa composição, um regalo! Julianne Moore, descontrolada mãe, proporciona-nos o adequado constrangimento e perplexidade face à sua sistemática raiva e negligência!
Sólido, emotivo e directo, "What Maisie Knew" não deixa o seu espectador indiferente!