
Pressente-se Saramago em todos os momentos. Um embargo económico a estagnar uma nação ou um embargo mental e cultural que ultimamente a define? Aposto no último, nessa opressão do sonho e invenção, nesse contraste anacrónico que ironicamente preenche o filme, numa sociedade perdida entre as (des)maravilhas da globalização, que tão fácil e mordazmente nos isola e bloqueia!
E que grande desempenho de Filipe Costa! O seu personagem, dono de uma determinação tão poética quanto inglória, tem uma composição sensível, lutadora, perturbada, sonhadora, desesperada e apaixonada, magnificamente expressa pela amplitude do seu olhar!
Articulando o excelente argumento com a esplêndida interpretação do protagonista, é de realçar ainda a eclética, intimista e invulgar banda – sonora e o trabalho de fotografia, num desolador sépia, que, em conjunto, complementam o retrato desesperante deste país esgotado, indefinido, tristemente suspenso no vazio da impotência!
“Embargo”, sublime adaptação de António Ferreira, entre o cómico e o sombrio, entre o ridículo e o grave, constitui uma fabulosa, louvável e absolutamente imperdível revelação do cinema português!
Assim, repito entusiasticamente: Por favor, não embargar!