11 maio 2016

Les Ponts de Sarajevo






O príncipe herdeiro que insistiu em desafiar o destino, se é que tal existe e nos comanda. As motivações em discurso directo e final do seu assassino. O desespero, cruel e voraz, da guerra das trincheiras. A cidade sitiada, por montanhas no horizonte e cadáveres na rua, sob a mira de snipers. O ressoar, década após década após década, da encruzilhada dos conflitos étnicos. Os traumas e os fantasmas de quem lá permaneceu e daqueles que não quiseram regressar.

Estas são algumas das perspectivas que (des)constroem "Les Ponts de Sarajevo", manta de retalhos de treze realizadores sobre a cidade-cerne de alguns dos (senão todos?) maiores conflitos do século XX. Revelam conhecimento, instigam reflexão: é, de facto, deveras impressionante e assustador a evolução dos acontecimentos que culminaram em tão diferentes e horríveis fins: as Grandes Guerras, a Guerra na Bósnia, os genocídios...E uma das curtas é especialmente acutilante nessa análise...e simultaneamente tão simples...uma conversa entre um casal, na cama, à volta do livro "Das Spektrum Europa", que ultimamente não é mais que um conjunto de estereótipos sobre os diferentes povos europeus, um eco dos perigos dos nacionalismos. Que culmina na visão do cemitério que se estende por Sarajevo, na curta "Quiet Mujo", que tem tanto de comovente como de desconcertante! Por último, uma nota negativa para "The Bridge of Sighs" de Godard, que me pareceu apenas uma incursão espalhafatosa, egocêntrica e sem real significado. Termino com um elogio para as sequências animadas que antecedem cada curta, metáforas do percurso de instabilidade e construção de Sarajevo!

Perspicaz e perturbador, "Les Ponts de Sarajevo" assume-se como uma viagem de reflexão e consciencialização que merece ser percorrida, sentida e pensada!



20 abril 2016

Versailles - primeiras impressões



"L´État c'est moi!"

Mito ou não, é verdade que a ousadia e força desta exclamação reflectem bem o reinado de Louis XIV! 
E é exactamente isso que a série "Versailles" nos tem vindo a mostrar, de modo terrivelmente deslumbrante e eloquente!





Luxo, sumptuosidade, beleza - manifestações do absolutismo encabeçadas pelo palácio de Versailles, esse expoente hipnotizante (que memórias mágicas tenho da visita!) do sonho máximo do Rei-Sol! É essa a trama de "Versailles", a construção e consolidação do poder de Louis XIV, por entre contrariedades, alianças, condicionantes, traições!

Mas também gosto que esta não seja uma reconstituição histórica per se, que esteja temperada de mística e sonho, para além de outros pormenores bem particulares e curiosos! Assim como as personagens e indiscutivelmente os actores que lhe dão vida, cativantes e misteriosos, que nos prendem o olhar desde as primeiras cenas! George Blagden, magnífico Louis XIV, sedutor, intransigente, manipulador, determinado, estratega e maquiavélico! Alexander Vlahos, conturbado e dividido Filipe, duque de Orleães! Ou as mulheres da corte: Elisa Lasowski, Noémie Schmidt, Anna Brewster, respectivamente, intrigante rainha, doce amante e, oh là là, insinuante e estratega amante!





Fiquei rendida ao primeiro episódio, os três que se seguiram comprovaram a minha absoluta paixão!


"Un roi sans château n'a rien d'un vrai roi!"



30 março 2016

Bachelorette



Um filme que quer ser irreverente e sarcástico no retrato que faz às suas protagonistas e às situações em que se vêem envolvidas mas que ultimamente se reduz aos clichés da comédia romântica! 





Tem alguns momentos engraçados mas a história é pouco consistente desde o início, o que resulta num produto final algo trapalhão (que raio é aquela personagem de Isla Fisher, por exemplo?) e ultimamente para esquecer...

Directo para a categoria de "filme de domingo à tarde"...e mesmo assim...




26 março 2016

Pride and Prejudice and Zombies



Juntar à narrativa de Jane Austen o factor zombies poderá parecer, se não sacrilégio, pelo menos um grande desastre...mas "Pride and Prejudice and Zombies" prova-nos bem o contrário! 

Factos curiosos: os zombies são apenas mais um contratempo para estas independentes personagens femininas a lutar contra a repressora sociedade inglesa do século XIX; é exactamente este desafio extra à sua compostura que torna o filme deveras divertido!





Se tem falhas? Pois então...as únicas irmãs Bennet falantes são só mesmo Elizabeth e Jane, Charles Dance e Lena Headey são pouco aproveitados, Lily James e Sam Riley não têm nem a química nem o charme dos seus antecessores e aquela trama secundária de Mr. Wickham é de facto pouco sustentada e explicada...

Mas compromete isto a valente dose de entretenimento? Nem por sombras, quer dizer, temos humor, acção e romance...e zombies, zombies! Zombies e Jane Austen? Fiquei rendida!


21 março 2016

Steve Jobs



Três momentos-chave, três momentos muito reveladores da personalidade de Steve Jobs, o tão afamado génio por detrás da Apple!

Assim está organizado este biopic não convencional, suportado pela escrita inteligente e sarcástica de Aaron Sorkin e pela vivacidade da realização de Danny Boyle!





Contudo, o mestre aqui é mesmo o portentoso Michael Fassbender, que incorpora de modo sublime as características tão definidoras de Jobs: a sua arrogância, a sua intransigência, a sua frieza, a sua inteligência e o seu egocentrismo! E goste-se ou não, admire-se ou nem por isso, a sua paixão por pela visão tão específica que tornou a Apple no que é actualmente!


16 março 2016

Spotlight






De construção formal e clássica, para mim "Spotlight" é significativo por relevar a importância e força do trabalho jornalístico: de investigar, de discutir e de realmente informar os cidadãos!

"Spotlight", o filme, desbrava metodicamente o trabalho de investigação da equipa homónima que expôs o escândalo de pedofilia na Igreja Católica norte-americana. Tal é atingido pelo cuidado e inteligente argumento e pelo valoroso elenco, no qual destaco as fortes interpretações de Mark Ruffalo e Michael Keaton!

"Spotlight" não é um filme avassalador pela sua forma, antes pela relevância do seu conteúdo, sendo por isso notavelmente indispensável!


07 março 2016

The Man from U.N.C.L.E.






É divertido, repleto de classe, é cool, descontraído e até sarcástico! Podíamos pedir mais? Penso que não! 





The Man from U.N.C.L.E” oferece-nos uma história cativante com os elementos clássicos da espionagem, três protagonistas bastante carismáticos e um ritmo empolgante, cheio de glamour e reviravoltas, que apesar de, por vezes, poder assentar mais no estilo do que na substância, é extremamente eficaz e satisfatório em proporcionar-nos um bom entretenimento!


29 fevereiro 2016

Óscares 2016 - Desilusões e Contentamentos





E ainda para mais Mad Max: Fury Road não é meramente cool! É irreverente, corrosivo, rebelde e inteligente não apenas na sua forma mas no seu conteúdo: por detrás do que pode ser considerado um excesso visual, possui uma mensagem forte de justiça, rebelião e igualdade! E sendo George Miller o seu génio inventivo, para mim a Academia ficou-lhes em grande dívida!





Leonardo DiCaprio  - O seu papel em The Revenant não foi nem de longe o melhor que já fez (podia falar de The Departed, de The Wolf of Wall Street, de Django Unchained,...) mas o meu coração de fã ficou muito contente ainda assim (mesmo que me doa Michael Fassbender não ter sido reconhecido, mais uma vez...)!




Alicia Vikander 




Ennio Morricone


26 fevereiro 2016

The Revenant



“On est tous des sauvages.” 





Em « The Revenant », domina o visceral e o agreste! Os elementos, os actos, as pessoas, a Natureza. A luz pertence ao passado, a esperança ao sonho. Tudo sufoca, tudo arrepia. Meros resquícios de bondade que se atrevam a surgir são rapidamente eliminados, sem misericórdia! 

“The Revenant”, sobrevivência movida pela vingança, é sem dúvida visceral na sua execução. A já célebre cena do urso é portentosa e deveras arrepiante, porque é realmente filmada de um modo intenso que nos transporta para o seu âmago: o ruído das garras, os jorros de sangue, o batuque da pata desejosa de esmagar o crânio…Ou a cena inicial do ataque dos índios Ree ao grupo, turbilhão de setas, balas, sangue e gritos. Mas até os momentos mais pausados assumem uma fatalidade perturbadora e sem compaixão. Falo da respiração alterada em sintonia com o movimento das nuvens, da manada de búfalos em debandada na imensidão da neve, da insignificância dos homens face ao jugo da Natureza…desconcertante! 





Para tal, muito contribui a asfixiante cinematografia de Emmanuel Lubezki, de planos belos, vastos e complexos, que esquece a luz em primazia do encoberto e do saturado. Em termos narrativos, a vingança é o motor e o destino do desejo de sobrevivência do protagonista Glass. Nada de propriamente novo, não fosse o extremismo que esta sobrevivência assume: como referi anteriormente, tudo é visceral e agreste e nem homens nem Natureza mostram compaixão ou misericórdia. E esses momentos insuportáveis e gráficos tanto nos fazem revirar na cadeira como nos compelem a não afastar o olhar, ou o coração, de Glass! 

Glass, composição de Leonardo DiCaprio indubitavelmente marcante e assombrosa pela situação de extremo, de resiliência e desespero que teve que demonstrar! Contudo, é o inquietante Fitzgerald de Tom Hardy que nos persegue até ao fim, esmagando-nos com a mácula da sua crueldade, crueza e impiedade! 





Em “The Revenant”, rendi-me ao jugo de Iñárritu, prodigioso e perturbador, também ele sem compaixão nem misericórdia!


25 fevereiro 2016

Room



Room, o livro, é desconcertante pela forma como abordou um tema de natureza horrível e complexa pelo olhar puro mas sagaz duma criança de 5 anos. "Room", o filme, foi capaz igualmente de o fazer e este é o maior elogio que lhe posso dar!





Embora em menor amplitude, o filme consegue manter a estrutura narrativa a partir do ponto de vista de Jack, originando uma perspectiva muito diferente, descomplexada e surpreendente dos acontecimentos! A narrativa, quer no cativeiro, quer no pós-fuga, tem tanto de sufocante como de comovente! E Brie Larson e Jacob Tremblay são ambos absolutamente arrebatadores no modo como encarnam as suas personagens: Brie Larson ao incorporar a mistura do seu trauma com a força e coragem necessárias para criar e proteger Jack; Jacob Tremblay porque impressiona pelo turbilhão de inocência, vitalidade, força e vitalidade que imprimiu à sua personagem!





"Room" é assim tão angustiante quanto inesperado, pelo misto de crueza e sensibilidade com que aborda esta temática, para além de nos marcar com a garra das interpretações dos seus protagonistas!