[Pode conter spoilers!]

“Up in the Air” começa exactamente aí: pelos ares, atravessando as nuvens, sobrevoando várias paisagens, ao som da fabulosa e vibrante “This Land Is My Land”, imprimindo-nos uma deleitável sensação de liberdade.
Liberdade é a quinta-essência de Ryan Bingham (interpretado por um subtil e magnífico George Clooney). O seu trabalho consiste em despedir outros, o que lhe permite viajar dum canto ao outro dos E.U.A, de empresa em empresa, de aeroporto em aeroporto. E assim, Ryan tornou-se, não só num perito em técnicas de downsizing, como igualmente um mestre neste estilo de vida: de facto, toda a sua vida cabe (orgulhosamente) numa pequena mala ou mochila, a sua casa é o conjunto de aeroportos e suites de hotel por que passa nos maravilhosos 300 e tal dias de trabalho (os restantes, de supostas férias, são um penoso sacrifício!) e a sua ambição é atingir o valor estratosférico de 10 milhões de milhas aéreas! Não será inesperado que surja uma atracção com o seu equivalente feminino, a profissional e decidida Alex Goran (Vera Farmiga, bela e natural), o que eleva ao expoente a satisfação que Ryan tem com o seu modo de vida… Até que o seu chefe decide “mantê-lo no chão”, seduzido pela enorme redução de custos que advém do plano proposto pela jovem e ambiciosa Natalie Keener (Anna Kendrick).
Estamos perante um excelente filme, com uma realização inspirada, um argumento (aparentemente) simples mas actual e surpreendente, interpretações fortes e uma banda sonora vibrante e reflexiva.

Clooney tem uma composição brilhante: se numa primeira parte nos deslumbra com todo o seu charme e carisma, posteriormente surpreende-nos com a vulnerabilidade e incerteza que a sua personagem sofre, arrancando uma das melhores interpretações que lhe conheço!
No entanto, é Anna Kendrick a grande revelação, constituindo, juntamente com Clooney, a alma e força do filme! A sua Natalie Keener, ambiciosa, contudo, inexperiente, tem tanto de caricato como de ingénuo e enternecedor! É através dela, do crescimento da sua personagem, por meio de acções e (in)decisões, que muitos dos acontecimentos se desenvolvem, que o filme cresce!

“Up in the Air”encaixa-se muito bem no presente clima de crise e incerteza económica. Aborda esse tema de uma forma bastante interessante e peculiar, ao ter como ponto de partida a personagem de Clooney e o seu trabalho como “downsizer”. Quando se foca nos desempregados (muitos deles são reais), sentimos o seu desalento, o seu desespero, a sua solidão ao terem que se encontrar e começar de novo.
A solidão é, de facto, o objecto subtil desta obra de Jason Reitman. E quem a carrega, senão Ryan Bingham? O homem que se gaba de e prega uma vida sem laços e sem compromissos, sejam afectivos, sejam materiais, acaba por se aperceber que está irremediavelmente só. E George Clooney é absolutamente magistral nesta reviravolta!
“Up in the Air” termina como começa: pelos ares. Mas não com os mesmos sentimentos de bem-estar ou liberdade que experimentámos inicialmente. Esses deram lugar a alguma resignação e tristeza (arrisco dizer) da parte do protagonista, mas também nossa.
E quando as nuvens se evaporam no negro do ecrã, somos conquistados com o testemunho cantado, simultaneamente sombrio e esperançoso, de Kevin Renick, ao longo dos créditos finais deste filme excepcional e sublime!









